ILHA FEIA - A gruta encantada dos anjos.
Depois da grande tempestade, quando Açauna e Sumé desapareceram e a paz voltou a reinar na terra dos Carijós, o chefe Ibiraçu tratou de refazer a tribo e acalmar a sua gente, convidando conhecidos de outros lugares para ajudá-lo na sua obra de reconstrução. Foram levantadas novas ocas, mais sólidas e melhor construídas. Até o lugar da taba foi mudado. Passaram a viver mais próximos do mar, em um terreno mais alto, onde a água salgada não chegava e de onde se avistava o casal de pedra lá no horizonte, como que de mãos dadas a olhar para eles, em terra para protegê-los e querendo dizer que o amor sempre vence e, por isso, é eterno. Não morre nunca...
O velho Ibiraçu sentia uma grande saudade da filha linda e querida que desapareceu no mar com o seu amor. Saudade amainada com o nascer diário do sol avermelhado que ele vinha ver toda manhã, na praia, para reverenciar a filha.
A paz voltou à aldeia e aos seus habitantes, agora regidos pela chama da felicidade, vivendo de lembranças, que fizeram com que até os seus hábitos e costumes fossem modificados. Com a cura de Sulé, graças às ervas usadas pelo Cacique, orientados por ele, passaram também a cultivá-las junto a mandioca, o milho, o amendoim e a batata, pois não viviam só de comer, tinham que tratar também das suas doenças, para viverem mais e melhor, que era agora o seu modo.
Não pensavam mais também na guerra, que só lhes trouxe tristeza, morte e desesperança. Quando algum inimigo vindo das terras atrás das montanhas os visitava, eles os tratavam como amigos os recebiam em suas casas, davam-lhes o que comer e beber, faziam festa, dançavam juntos e, até, procriavam entre si, misturando as raças e as boas qualidades de cada uma, formando um povo mais alegre e feliz, mas também mais forte e trabalhador. Os anjos que moravam na gruta da ilha os ajudava, ensinando a plantar e a cuidar da natureza, como Sumé, quando era vivo, fazia. Os homens só mudam o seu modo de viver e de resar através da dor ou do amor. Com a tribo de Ibiraçu, aconteceram os dois fatos: A desgraça da guerra, que causou muitas mortes, inclusive a da filha do chefe e do seu amor pelo estranho Sumé, que era muito querido por todo aquele povo, a quem muito ajudou, com seu trabalho e ensinamentos.
Esses anjos, que os orientava, viviam na gruta da ilha, no mar alí em frente e por isso, era conhecida como gruta encantada. Todos os dias, já com o raiar do dia chovesse ou fizesse sol, esses anjos vinham, em bando, numa formação perfeita, voando até a terra, onde se espalhavam e passavam o dia, ajudando a preservar a natureza e, consequentemente, os homens que alí viviam. Eram anjos de paz e não tinham muito trabalho, porque o povo que alí viviam eram os Carijós, bons, pacíficos, trabalhadores e amigos, que cuidavam muito e aprenderam fácil como preservar a natureza, admirando-a e respeitando-a. Sabiam que ela era a sua mãe maior e que tinha que ser respeitada e protegida. Afinal de contas, era dela que recebiam o alimento e a cura para as suas doenças.
Já com o raiar do dia, os anjos da gruta encantada saiam voando aos bandos, em direção aos seus postos, só voltando ao entardecer, com os primeiros sinais da noite. O tempo passava lento na terra dos Carijós, até que um fato muito grave veio trazer nova tristeza aquela gente, já acostumada à felicidade e à paz, não só a da guerra, mas também á do espírito, que é a que vale.